A VIOLÊNCIA QUE ESCOLHEMOS ENXERGAR
O debate provocado pelo filme sobre o caso Elize Matsunaga ultrapassa a curiosidade em torno de um crime que chocou o país. Ele nos convida a refletir sobre a forma como a sociedade reage à violência quando uma mulher ocupa o lugar de autora e sobre quais histórias merecem atenção e indignação.
De um lado, surgem discursos que romantizam Elize, transformando um crime grave em narrativa de vingança, libertação ou empoderamento feminino. De outro, há quem a reduza à figura de uma “psicopata”, como se sua conduta pudesse ser explicada apenas por uma suposta monstruosidade.
Nenhum dos extremos contribui para uma reflexão séria.
Um crime não se torna legítimo porque foi praticado por uma mulher, nem deve ser convertido em símbolo de emancipação. A responsabilização pelos atos praticados é indispensável. Mas também é preciso questionar por que a violência cometida por mulheres provoca tamanho espanto, sobretudo quando rompe com a imagem historicamente construída da mulher como alguém naturalmente dócil e incapaz de extrema brutalidade.
Na última semana, em nossa cidade, uma mulher ainda não identificada foi esquartejada pelo homem com quem estava se relacionando e teve seus restos mortais despejados em bueiros e lixeiras, como se um lixo fosse. A notícia causou choque, como deveria causar. Mas fica a pergunta: esse caso terá a mesma repercussão, a mesma mobilização e o mesmo interesse coletivo que o crime cometido por Elize Matsunaga?
Todos os dias, mulheres são brutalmente assassinadas por homens com quem mantiveram relações afetivas. Muitas são violentadas, mutiladas, descartadas e, pouco tempo depois, substituídas por uma nova notícia. A repetição produz um efeito perigoso: a violência contra mulheres deixa de causar indignação permanente e passa a integrar uma rotina trágica.
Questionar essa diferença não significa minimizar o crime cometido por Elize, nem transformar homens em inimigos. Também não significa afirmar que mulheres não possam cometer crimes ou devam receber tratamento diferente perante a lei.
Significa defender coerência.
Não devemos endeusar mulheres, nem demonizar homens. Precisamos rejeitar a romantização da violência, responsabilizar quem comete crimes e perguntar por que determinadas histórias se transformam em fenômenos nacionais enquanto tantas mulheres assassinadas permanecem apenas como mais um número nas estatísticas.
A justiça deve ser igual. Mas a nossa indignação também precisa ser. Que este Agosto Lilás nos faça refletir sobre a violência de gênero, sobre a seletividade da nossa indignação e sobre o quanto ainda precisamos evoluir como sociedade.
Lívia Maria de Carvalho
Advogada. Relatora do Comitê Especial sobre Julgamento com Perspectiva de Gênero da OAB/SP.



Comentários